Introdução
Bacula: completa plataforma cliente/servidor de Backup
Sandro R. Mendes sandro@jaboticabal.sp.gov.br
Muito se questiona sobre a preocupação com a segurança da informação nas empresas, normas, padrões e soluções disponíveis para (tentar) garantir uma infra-estrutura que suporte todos os negócios de uma empresa.
Mas desde os primórdios da informática, quando o assunto é segurança, logo vem em mente o conceito de backup. Antes de qualquer adoção de políticas de segurança e normas que regem boas práticas em segurança da informação, o bom administrador de sistemas que se preze deve ter um trabalho de backup assegurando o mínimo de segurança.
Seguindo essa linha e buscando sempre soluções que atendam as necessidades das empresas, o Bacula apresenta-se como uma plataforma cliente/servidor completa de Backup, suportando múltiplas plataformas (inclusive clientes Windows), uso de discos e/ou fitas para o armazenamento dos dados, diferentes agendamentos para um mesmo trabalho de backup, uso de uma mesma fita para vários backups, e muitas outras opções. E o melhor de tudo é que o Bacula é open source! Em resumo, Bacula é uma completa solução para criação de trabalhos de backup em rede, com poderosos recursos, múltiplas funções e de fácil configuração.
A seguir apresentarei minha experiência com o Bacula, desde a instalação num sistema FreeBSD até sua configuração e agendamento de trabalhos, lógico de acordo com cada necessidade.
Instalação Apesar de a instalação ter sido realizada no FreeBSD via ports, acredito que não haverá problemas na instalação em distribuições Linux; a única mudança será no momento da instalação e nos caminhos onde foram instalados os arquivos do Bacula.
O Bacula armazena toda sua informação em base de dados MySQL, SQLite e até PostgreSQL, ou seja, antes de qualquer coisa você deverá ter instalado em seu servidor um desses programas.
Chega de papo e mãos à obra: Como dito acima, instalei o Bacula no sistema via ports no FreeBSD. A versão utilizada do Bacula foi a 1.34.6.
# cd /usr/ports/sysutils/bacula # make -DWITH_POSTGRESQL7 # make install
Minha instalação foi simples, quase que padrão. Somente especifiquei o suporte ao banco PostgreSQL versão 7. Dependendo de seu caso, deverá configurar seu Bacula com suporte ao banco que escolher. Para maiores informações sobre as opções de instalação do Bacula, consulte o manual on-line ou baixe no formato PDF no site; até sua documentação é excelente, completa até com exemplos.
Agora é hora de criar o banco de dados Bacula em seu SGBD. Nesse exemplo utilizei o PostgreSQL:
# cd /usr/ports/sysutils/bacula/work/bacula-1.34.6/src/cats # ./create_postgresql_database # ./make_postgresql_tables # ./grant_postgresql_privileges
Segurança Os daemons utilizados pelo Bacula deverão rodar com usuário "bacula". Na instalação via ports o usuário/grupo foram criados automaticamente. No arquivo /etc/passwd podemos encontrar a seguinte linha:
| | bacula:*:1002:1002::0:0:Bacul Daemon:/var/db/bacula:/sbin/nologin | Em seguida, devemos definir as permissões para o diretório onde se encontra o BD Bacula:
# chown -R bacula:bacula /var/db/bacula/
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Configuração do Bacula
Como deu pra perceber, a instalação do Bacula é simples e sem complicações. Por padrão os arquivos de configurações ficam em /usr/local/etc. Agora é a hora da configuração do servidor e, para isso, deve-se entender sua estrutura organizacional. Divide-se em 3 partes: - o Director (bacula-dir.conf) é a parte mais complexa do sistema, afinal é a principal onde figura-se toda a configuração dos trabalhos de backup (job), agendamentos, pools, seleção do que fazer backup (FileSet), definição do tipo de armazenamento, etc. Enfim, é onde se configura os clientes e arquivos que irão fazer parte do backup, além de se comunicarem com os clientes e dispositivos de armazenamento.
- File Daemon (bacula-fd.conf) representa uma espécie de agente, rodando em cada máquina que for participar de um trabalho de backup. Em resumo, todo cliente deverá ter rodando esse daemon, estabelecendo uma comunicação com o Director, que por sua vez gerencia todas essas comunicações.
- Storage Daemon (bacula-sd.conf) é o arquivo de configuração do Bacula onde se insere os dispositivos de armazenamento, como fitas e discos. Esse daemon é responsável por estabelecer a comunicação com esses dispositivos.
Em resumo, a boa divisão das funções que compõem um serviço de backup do Bacula permite sua fácil configuração e administração. Para a configuração geral de um dado backup, edite o arquivo bacula-dir.conf; para configurar um cliente, é só editar o file daemon (bacula-fd.conf) na máquina que irá se comunicar com o servidor (onde se encontra a unidade de armazenamento); e para configurar o tipo de dispositivo que irá armazenar os trabalhos, é só editar o bacula-sd.conf.
Antes de iniciar a configuração desses 3 arquivos, deve-se ter em mente o sistema de backup que você irá adotar para sua empresa. Ele irá variar de acordo com a necessidade de negócio. Nesse artigo o exemplo de configuração será baseado no seguinte sistema: - Backup do próprio servidor, realizando a cópia completa de todos os sites hospedados, no período de Segunda à Sexta. Como deu pra perceber, configurei o Bacula no mesmo servidor Web, onde se encontra a unidade de dispositivo (fita DAT Sony SDT-9000).
- Backup do servidor de e-mail, realizando a cópia de todas as pastas das contas existentes, também no mesmo período que o servidor Web. Esse é o cliente, rodando FreeBSD.
De acordo com os trabalhos definidos, agora é chegada a hora de configurar o Bacula para atender esses backups. Abaixo seguem os exemplos dos arquivos de configurações do servidor (onde se encontra a fita DAT). Não irei explicar todos os parâmetros de configuração, até porque são muitos. Como sempre, é só consultar o manual do Bacula para obter todas as informações sobre os recursos disponíveis.
Primeiro irei configurar o arquivo bacula-sd.conf, inserindo as principais diretivas sobre o dispositivo de armazenamento:
# vi /usr/local/etc/bacula-sd.conf
| Storage { Name = "server-dir" # por padrão o bacula já utiliza o nome do servidor em que foi instalado, # nesse caso o director será identificado como server-dir
SDPort = 9103 # porta de conexão com o daemon
WorkingDirectory = "/var/db/bacula" PidDirectory = "/var/run" SubSysDirectory = "/var/db/bacula" # diretórios utilizados pelo Bacula, também padrão }
# # List Directors who are permitted to contact Storage daemon # Director { Name = server-dir Password = "senha" }
# # Devices supported by this Storage daemon # To connect, the Director must have the same Name and MediaType, # which are sent to the File daemon # Device { Name = "DDS-3" Media Type = DDS-3 Archive Device = /dev/sa0 # nesse caso, o dispositivo configurado é uma fita DAT Sony SDT-9000, # DDS-3. O caminho para acesso no FreeBSD é o /dev/sa0, portanto muita # atenção para a configuração de acordo com seu sistema
AutomaticMount = yes; # when device opened, read it Offline On Unmount = yes AlwaysOpen = yes; RemovableMedia = yes; Hardware End of Medium = No BSF at EOM = yes }
Messages { Name = Standard director = server-dir = all operator = root = mount } # mensagens também padrão | Agora é hora de configurar o bacula-fd.conf de nosso servidor, afinal ele também será backupeado. Em resumo, o único parâmetro alterado foi a conexão com o Director, onde você deve inserir a mesma senha cadastrada no bacula-dir.conf. Obviamente elas devem coincidir para que sejam estabelecidas as conexões entre o Director, seu cliente, e o dispositivo.
| # # Default Bacula File Daemon Configuration file # # There is not much to change here except perhaps the # File daemon Name to #
# # List Directors who are permitted to contact this File daemon # Director { Name = server-dir Password = "senha" }
# # "Global" File daemon configuration specifications # FileDaemon { Name = ns2-fd FDport = 9102 WorkingDirectory = /var/db/bacula Pid Directory = /var/run # arquivos de conexão com o daemon, também padrão }
# Send all messages except skipped files back to Director Messages { Name = Standard director = server-dir = all, !skipped } | Como teremos 2 clientes, o próprio servidor e outra máquina, tendo seus dados backupeados é preciso configurar somente o file daemon (bacula-fd.conf) da máquina conectada em rede. Antes disso, é preciso instalar o Bacula com a opção -enable-only-client. Após essa etapa, é só editar o arquivo com as mesmas configurações acima. Depois é só startar seu daemon. Para ter certeza de que tudo está em ordem com esse cliente, certifique-se de que o daemon esteja rodando:
# ps awux | grep bacula bacula 25934 0.0 0.7 3104 1892 ?? Ss Mon03PM 0:23.72 /sbin/bacula-fd -v -c /usr/local/etc/bacula-fd.conf
Beleza, está funcionando. A porta 9102 está aberta, pronta pra estabelecer conexão com o servidor quando esse efetuar o backup.
Agora é chegada a hora de configurar o arquivo principal do Bacula, o Director. Nele iremos inserir os jobs, agendamentos, clientes e os arquivos a serem backupeados:
| # # Kerns Production Bacula Director Daemon Configuration file #
Director { Name = server-dir DIRport = 9101 # where we listen for UA connections QueryFile = "/usr/local/etc/query.sql" WorkingDirectory = "/var/db/bacula" PidDirectory = "/var/run" SubSysDirectory = "/var/db/bacula" Maximum Concurrent Jobs = 2 # como teremos 2 jobs sendo executados num mesmo agendamento, a #parâmetro foi alterado. O padrão é 1. Password = senha }
Schedule { Name = "Diario" Run = Level=Full Pool=SegundaPool Monday at 10:00pm Run = Level=Full Pool=TercaPool Tuesday at 10:00pm Run = Level=Full Pool=QuartaPool Wednesday at 10:00pm Run = Level=Full Pool=QuintaPool Thursday at 10:00pm Run = Level=Full Pool=SextaPool Friday at 10:00pm # no agendamento, o backup será realizado # de segunda à sexta, sempre às 22 horas. Criei um pool dos # volumes para cada dia, afinal cada fita terá sua label # para cada dia. }
Job { # essa é a configuração do trabalho do cliente, a maquina remota. Name = "Servidor NS1" Type = Backup Level = Full #backup do tipo full Client=ns1-fd #esse parâmetro será configurado logo abaixo FileSet="Server-NS1" #seleção do que será backupeado, também logo #abaixo Messages = Standard Storage = DDS-3 #dispositivo onde será armazenado o job Pool = Default Schedule = "Diario" Write Bootstrap = "/var/db/bacula/Client1.bsr" Priority = 10 }
Job { Name = "Servidor NS2-local" Type = Backup Level = Full Client=ns2-local FileSet="Server-NS2" Messages = Standard Storage = DDS-3 Pool = Default Schedule = "Diario" RunAfterJob = "/usr/local/etc/ejeta_tape.sh" # esse parâmetro especifica a # execução de um comando após o término do job. Esse script faz com que a # mídia seja desmontada e ejetada. O script está disponível no término desse # arquivo. Write Bootstrap = "/var/db/bacula/Client1.bsr" Priority = 10 }
# Standard Restore template, to be changed by Console program Job { Name = "RestoreFiles" Type = Restore Client= ns2-local FileSet="Full Set" Storage = DDS-3 Messages = Standard Pool = Default Where = /tmp/bacula-restores }
FileSet { # insira os arquivos/diretórios que deverão ser copiados Name = "Server-NS2" Include = signature=MD5 { /www } Exclude = { # caso queira excluir algum diretório /www/data /tmp/* } }
FileSet { Name = "Server-NS1" Include = signature=MD5 { /var/mail } Exclude = { /tmp/* } }
FileSet { Name = "Full Set" Include = signature=MD5 { # @/etc/backup.list } Exclude = { } }
# Definição do dispositivo de armazenamento Storage { Name = DDS-3 Address = 172.16.0.3 #atenção, coloque sempre o IP e não localhost SDPort = 9103 Password = senha Device = "DDS-3" # deve ser o mesmo do que o especificado no # bacula-sd.conf Media Type = DDS-3 }
# máquina local Client { Name = ns2-local Address = localhost FDPort = 9102 Catalog = BackupDB Password = senha File Retention = 30d # 80 days Job Retention = 1y # one year AutoPrune = yes # Prune expired Jobs/Files }
# máquina remota Client { Name = ns1-fd Address = 172.16.0.2 FDPort = 9102 Catalog = BackupDB Password = senha File Retention = 30d # 80 days Job Retention = 1y # one year AutoPrune = yes # Prune expired Jobs/Files }
Catalog { Name = BackupDB dbname = bacula; user = bacula; password = "" }
# o Bacula oferece o recurso de enviar os relatórios (logs) # por e-mail. Para isso insira o seu servidor smtp e # seu e-mail Messages { Name = Standard mailcommand = "/home/bacula/bin/smtp -h servidor.smtp -f \"\(Bacula\) %r\" -s \"Bacula: %t %e of %c %l\" %r" operatorcommand = "/home/bacula/bin/smtp -h servidor.smtp -f \"\(Bacula\) %r\" -s \"Bacula: Intervention needed for %j\" %r" MailOnError = usuario@mail.com = all append = "/home/bacula/bin/log" = all operator = YOUR-EMAIL@YOU.com = mount console = all }
Pool { Name = Default Pool Type = Backup Recycle = yes # Bacula can automatically recycle Volumes AutoPrune = yes # Prune expired volumes Volume Retention = 1d # one year }
Pool { Name = SegundaPool Pool Type = Backup Recycle = yes AutoPrune = yes Volume Retention = 6d # o volume poderá ser utilizado novamente # para backup após 6 dias Accept Any Volume = yes } Pool { Name = TercaPool Pool Type = Backup Recycle = yes AutoPrune = yes Volume Retention = 6d Accept Any Volume = yes }
Pool { Name = QuartaPool Pool Type = Backup Recycle = yes AutoPrune = yes Volume Retention = 6d Accept Any Volume = yes }
Pool { Name = QuintaPool Pool Type = Backup Recycle = yes AutoPrune = yes Volume Retention = 6d Accept Any Volume = yes }
Pool { Name = SextaPool Pool Type = Backup Recycle = yes AutoPrune = yes Volume Retention = 6d Accept Any Volume = yes } | Agora crie um script ejeta_tape.sh e salve em /usr/local/etc/. Não esqueça de definir permissão sobre esse arquivo para que o Bacula possa executá-lo.
| #!/bin/sh
/usr/local/sbin/bconsole -c /usr/local/etc/bconsole.conf END_OF_DATA unmount quit END_OF_DATA | Após a configuração desses 3 arquivos no servidor, o serviço Bacula deverá ser iniciado. No meu caso, a instalação criou o daemon que controla os serviços em /usr/local/etc/rc.d.
# bacula.sh start
Caso não haja erro de configuração, o Bacula será iniciado e pronto pra executar os trabalhos de backup. Para confirmar sua execução:
# ps awux | grep bacula bacula 50839 0.0 0.4 3068 1864 ?? Ss 4:20PM 0:09.66 /usr/local/sbin/bacula-sd -u bacula -g operator -v -c /usr/local/etc/ root 50841 0.0 0.4 3024 1844 ?? Ss 4:20PM 0:20.00 /usr/local/sbin/bacula-fd -u root -g wheel -v -c /usr/local/etc/bacul bacula 50845 0.0 0.5 5800 2564 ?? Ss 4:20PM 0:10.23 /usr/local/sbin/bacula-dir -u bacula -g bacula -v -c /usr/local/etc/b root 53861 0.0 0.2 1448 848 p0 S+ 11:40AM 0:00.00 grep bacula
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Administrando o Bacula
Para administrar o Bacula o padrão é seu console, mas existe também o modo gráfico que roda no Gnome. Para acessar o console precisamos editar o arquivo bconsole.conf, especificando somente como se conectar ao Director:
# vi bconsole.conf
| # # Bacula User Agent (or Console) Configuration File #
Director { Name = server-dir DIRport = 9101 address = localhost Password = "senha" } | Agora sim, para acessar o console:
# /usr/local/sbin/bconsole -c /usr/local/etc/bconsole.conf Connecting to Director server-dir:9101 1000 OK: HeadMan Version: 1.30 (28 April 2004) *
Estamos no prompt do console. Para obter informações sobre todos os comandos disponíveis é só digitar "help". Agora é escolher a opção desejada e trabalhar. Por exemplo, se quiser obter informações sobre o status de ser servidor, digite "stat" e selecione a opção desejada. O Bacula é muito fácil e intuitivo de ser gerenciado.
Para realizar os trabalhos de backup nas unidades de fita, é preciso criar uma label para cada volume. Após isso é necessário montar o dispositivo pra ficar online, mas para agilizar a tarefa, digite apenas "label", siga os passos e pronto. Seu dispositivo está montado e pronto pra armazenar seu trabalho.
Caso queira realizar um trabalho de backup, execute "run" e escolha a opção de acordo com o menu.
Para realizar a restauração de um arquivo/diretório, digitar "restore":
* restore Using default Catalog name=MyCatalog DB=bacula First you select one or more JobIds that contain files to be restored. You will be presented several methods of specifying the JobIds. Then you will be allowed to select which files from those JobIds are to be restored. To select the JobIds, you have the following choices: 1: List last 20 Jobs run. 2: List Jobs where a given File is saved. 3: Enter list of JobIds to select. 4: Enter SQL list command. 5: Select the most recent backup for a client. 6: Select backup for a client before a specified time. 7: Enter a list of files to restore. 8: Enter a list of files to restore before a specified time. 9: Cancel. Select item: (1-9): 3 Enter JobId(s), comma separated, to restore: 2 You have selected the following JobId: 2 Building directory tree for JobId 2 ... 1 Job inserted into the tree and marked for extraction. Automatically selected Storage: File
You are now entering file selection mode where you add and remove files to be restored. All files are initially added. Enter "done" to leave this mode.
cwd is: /www
A maneira de se escolher os arquivos/diretórios a serem restaurados no Bacula demonstrado acima é simples; selecione a opção 3 e em seguida o JobID (cada trabalho executado recebe um número identificador). Após a seleção do trabalho, você irá navegar pela árvore de diretórios que foram backupeados. A navegação é padrão do shell Unix. Após encontrar o arquivo desejado, para selecioná-lo execute o comando "mark". Um * aparecerá ao lado do arquivo. Para finalizar, execute done e siga os passos finais.
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